A atração da loucura

Tenho notado o quanto a loucura é atraente, pelas situações que vivi e no que tenho ouvido ultimamente sobre experiências alheias. E para não dizer que influencio o que ouço, deixo dito que quem me diz nada sabe de mim.

Verifico que a loucura é como um falso álibi, ela permite que o agente se isente pela  sua presença. Assim, o culpado sente-se menos culpado, pois sabe que os outros não podem julgá-lo sem que se considere a doença.

Acreditar-se louco deveria ser crime. Quem se define e rotula assim é na verdade covarde. Assume para si que está em uma situação irremediável e o que decorrer da loucura estará além de suas capacidades de solução. É permanente e inevitável desculpa.

E como não chamá-la atraente?

Quem se considera louco, considera-se também diferente, acima da média, acima dos outros. Acredita ser a loucura decorrente de um estado constante de genialidade. É estar além do medíocre, do comum. “Eu sou diferente”.

E essa segurança excêntrica, não pode ser menos do que atraente. Porque vista de fora, vê-se somente a imagem definida. Vende-se o rótulo de algo que não é produto. Não esperamos ser seduzidos com uma mentira. Porque quem não manipula, não acredita ser manipulado. E aceita uma mentira como verdade.

E quando, depois de seduzido, se depara inevitavelmente com a realidade, já não a reconhece. Fica inerte e despreparado para lidar com as perdas. Insere-se na loucura do outro. Pois ainda que esteja vivendo a realidade, está plenamente iludido. E hoje eu sei como é difícil deixar de viver uma fantasia, já que ela parece sempre maravilhosa.

Mas afirmo com toda a minha convicção que ser louco é mesmo ser diferente. Um diferente perigoso. Não é um excêntrico que acrescente. O louco é um diferente estático, incapaz de compartilhar. Ele tem uma restrição enorme no olhar e enxerga menos do que o mais comum dos seres humanos.

Ele se ofende e sofre com a realidade. Pois ao se considerar louco e diferente, não percebe que a diferença exclui. E que a sua opção e gosto pela diferença, faz perder a capacidade de viver em conformidade com o que é comum.

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Sobre Carol Borges

Publicitária formada e linguista em formação. Interessada em tudo o que é arte, assim, de maneira bem subjetiva mesmo.
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2 respostas para A atração da loucura

  1. Isabel Hargrave disse:

    Me lembrou Salvador Dalí e sua loucura publicitária. E sobre ser louco e gênio, cito-o: “não quero ter filhos, pois filhos de gênios costumam ser medíocres”.

  2. Sônia disse:

    “De médico e louco todo mundo tem um pouco”. Como diria o ditado popular a loucura parece te elevar à um status inexistente presente apenas na fantasia da loucura. É um estado de “bobo alegre” em que os recursos se excluem na medida da necessidade. É um “sentir-se o tal”, com sinais de infantilidade. Uma construção maluca de defesa psíquica para ocultar uma fragilidade imensa. Próprio de adolescentes, mas tem adolescentes de todas as idades. Conheci, recentemente, um de 56 anos. Bem maluco beleza!
    Parabéns pelo texto. Belíssima reflexão.

    Bjo!
    Sônia

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