No meio do caminho

Há muito tempo eu me pergunto por que é que só tem pedra no meio do caminho, e finalmente eu descobri…

Viajei para Buenos Aires e acabei conhecendo uma cidade não muito diferente de São Paulo. Todos os dias eu acordava bem cedo, pegava o metrô e ia para algum lugar que eu achava que tinha um nome legal, ou que estava no meu guia turístico, ou que eu ouvi em alguma conversa. Todos os dias, quando ia do albergue à estação de metrô ou trem, eu fazia um caminho diferente. Só para ter o prazer de conhecer uns quarteirões a mais de Buenos Aires. Só então eu me dei conta:

Eu moro há 6 anos em São Paulo e NUNCA fiz um caminho diferente do costumeiro que não fosse para desviar de congestionamento. Eu nem olho em volta. Às vezes pesquiso horas na internet uma loja que preciso visitar, para descobrir que passo por ela TODOS os dias no caminho da faculdade. Fico irritada com o trânsito, com a distância, com o tempo que eu perco da minha vida com atividades maçantes. Odeio ter que cozinhar e a lavar louça do almoço. Fico louca da vida por ter que limpar a casa, lavar roupa, limpar a areia dos gatos, ir até o supermercado, ir ao banco, chamar o pedreiro, molhar a planta, descer na portaria do prédio para buscar a correspondência…

Claro que eu vejo como pedra tudo o que antecede as minhas finalidades. É sempre pedra. Porque se não fosse eu nem veria. É preciso tropeçar, cair, ralar a cara no chão para ver bem de perto que existe um caminho inteiro de não-obstáculos que a gente simplesmente ignora.

Tenho pensado a cada dia o que cada uma das minhas atividades rotineiras representam. A minha liberdade de morar sozinha e dar conta da minha vida. O quanto pode ser tão prazeroso cozinhar e lavar a louça tendo em vista que eu não como simplesmente para suprir as minhas necessidades diárias de nutrientes. Existe um prazer imerso na atividade de comer e ela engloba todas as atividades relacionadas a isso. Tento ir pelo caminho mais arborizado para a faculdade, e ler jornal nos semáforos para não esperar entrar na sala de aula para considerar que comecei a viver.

Tenho tentado praticar a minha vida em todos os momentos que se seguem desde que eu acordo e não só quando estou fazendo o que eu marquei na minha agenda. Não posso dizer que estou menos estressada, mas pelo menos estou mais feliz.

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Sobre Carol Borges

Publicitária formada e linguista em formação. Interessada em tudo o que é arte, assim, de maneira bem subjetiva mesmo.
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4 respostas para No meio do caminho

  1. Isabel Hargrave disse:

    Fico muito feliz por você, mesmo! Eu procuro sempre dar valor a esses momentos que você peracia considerar de “entre-vida”. Na verdade, eles é que são a vida, mesmo. Nunca parei para pensar que havia gente que simplesmente não olhava para eles, mas lendo suas palavras tudo faz mais sentido, acho que quase ninguém olha para eles. Só não podemos incorrer no risco de comerçar a achar que estudos, trabalho etc fazem parte das chatices da vida. Também para eles devemos olhar com carinho e eprceber o quanto eles podem nos fazer feliz. Que bom que você percebeu que ao lado das pedras existem as flores que passam pelo caminho.

  2. H disse:

    É aquele velho humano vício de viver avaliando o passado e projetando o futuro, enquanto o hoje se transforma em um passado cheio de hiatos e em um futuro eterno de expectativas….até que ponto. A vida acabou sem ser vivida!

  3. Sem nome disse:

    Escreva mais…

  4. Linda disse:

    Hola Carol! genial que a tu edad te des cuenta de esas cosas que muchas personas la cargabamos como cruces, hasta que nos dimos cuenta que podían ser parte del paraíso!
    En cada esquina hay una historia y la magia está por todos lados, en un café con leche y en un barrio gris. Ese es nuestro desafío, descubrirlo donde parece no haber nada!!

    Me encantan tus escritos!!!!!!
    un abrazo giganteeeeeeeeeeee!!!!!!!!

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