Por que pergunta se não quer saber?

– Como foi viajar sozinha pela Argentina?

– Foi exatamente o que eu precisava.

– Como assim?

– Sabe quando você precisa de um tempo pra pensar e ao mesmo tempo não tem que pensar porque você está de férias e aí as fichas começam a cair sozinhas e você assiste interessadíssima a sua própria vida como se fosse outra pessoa?

– …

– Sabe como é ver essa pessoa que é você de férias – que está construindo um novo você para depois das férias – acordar um dia, em um lugar que nem sabe direito onde é, falando uma língua estrangeira antes de abrir o olho, e ter a magnífica idéia de alugar uma bicicleta e sair fotografando a cidade, esquecendo o frio que faz do lado de fora do hostel, com medo de ser assaltada, olhando o mapa a cada 5 segundos e sem coragem de largar a bicicleta alugada para comprar um café quentinho e, no entanto, desfrutando da maior felicidade que se lembra de ter sentido nos últimos meses? E muito cansada, pensa: Eu estou livre! E conforme o tempo vai passando longe de tudo, você vai entendendo, vai abrindo mão de certas coisas e começa a traçar novos planos para o futuro

– Então você gostou?

– …

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Sobre o trabalho

Eu não sei bem sobre o que escrever. Estou com diversos temas na cabeça há semanas e não consigo me organizar para escrever. E mesmo que não faltem idéias, se faltar a disciplina não há texto.

Algo que atrapalha também é a questão da obrigação, que parece sempre tirar o prazer. Para me comprometer com o meu prazer e garantir, pelo menos, algumas horas semanais dedicadas a ele, tornei-o um dever. E como qualquer pessoa, eu não fico satisfeita de maneira nenhuma.

O sentimento de realização ao escrever começou a se confundir com o desejo não ter mais uma obrigação, ainda que voluntária. Então, inventei uma doença para mim mesma e não fui trabalhar. Mas como o remorso foi grande e não sou uma boa mentirosa, decidi contar a verdade para mim mesma e escrever sobre isso.

Todos já devem ter ouvido a frase “Escolhe um trabalho que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida”. Não vejo como isso pode ser verdade. Será que fazer todo dia o mesmo trabalho, mesmo que se ame, não é comparável a comer todos os dias a mesma comida?

Será possível um dia alguém ficar satisfeito com o próprio trabalho? Não reclamar do chefe? Não reclamar do salário? Fazer essas coisas é tão inerente à condição humana. Será que estar insatisfeito não é a única forma de melhorar? De buscar novas conquistas? E será que não é justamente esse desejo constante de ter algo que não temos que torna o ser humano tão diferente dos outros animais? Pois se alcançássemos a resignação e o contentamento plenos não teríamos mais pelo o que lutar.

Indo por esse caminho, seria possível dizer que se o homem trabalhasse com algo que ama o tempo todo e nunca se sentisse trabalhando, então ele nunca estaria insatisfeito, logo, esse trabalho o tornaria menos humano?

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A magia da Copa do Mundo

Eu não gosto de futebol. Eu odeio quando o trânsito pára por causa de um jogo. Morro de raiva quando vejo alguém bravo ou rezando por causa de um time. Será que ninguém lembra que os jogadores estão ali ganhando milhões para ficar correndo atrás de uma bola? Quanta gente não paga para jogar em um campo com os amigos no final de semana?

Mas confesso que não entendo nada de futebol. Não sei o que é um impedimento, nunca descubro o nome do time pelas três letrinhas que aparecem ao lado do placar, não sei o nome dos jogadores, não sei o que significa estar na terceira divisão, não conheço os hinos e nem os uniformes.

E tenho também que confessar que não sabia que a Copa do Mundo era esse ano, não sabia qual dia ia começar e quando me disseram “vai ter Copa no Brasil em 2014” eu falei: ah! Sério? Que droga! Aumentaram o circo eleitoral de 2014.

Mas no dia do primeiro jogo do Brasil, nessa terça-feira, 15, eu vi uma cena que me fez repensar a Copa do Mundo. Eu valorizei o futebol e assumo que ele é culturalmente muito importante para os brasileiros. Representa mais do que um mero jogo de futebol, mais do que nacionalismo burro. Ele está envolvido por uma paixão mágica.

A cena que eu vi foi a seguinte: na frente de um barraco de papelão todo remendado, construído embaixo de uma ponte na Marginal Pinheiros, com roupas velhas penduradas em um varal de fio de eletricidade, uma criança magra vestida em trapos corria e pulava com uma bandeira do Brasil de plástico – dessas que dão de graça em posto de gasolina – toda feliz gritando “Brasil! Brasil!” em torcida.

Nesse momento eu pensei na vida triste que esse menininho e vários outros iguais a ele tinham. Nas refeições não-feitas. Na nas aulas da escola que perde todos os dias embaixo de sol e de chuva nos semáforos da cidade.  No frio que deve ter passado nesses últimos dias. Em todas as vontades teve: de um brinquedo, de um salgadinho, de uma roupa, de um tênis; vontades supérfluas para um adulto, mas que fazem toda a diferença na construção de uma infância. Isso sem contar a possível falta de carinho e educação dentro de casa, o provável contato com as drogas e com o crime e várias outras situações correntes na nossa sociedade.

E quando eu vi que essa criança era capaz de esquecer todas as mazelas do mundo por 90 minutos do seu dia, toda a Copa do Mundo valeu à pena. Até o trânsito em que eu estava parada já há 40 minutos valeu à pena. E eu também torci para que o Brasil ganhasse. Porque assim, por pelo menos mais alguns jogos e por mais algumas horas, as pessoas irão magicamente esquecer todas as suas tristezas.

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Especial Dia dos Namorados

Depois de muito errar nos pedidos anteriores, gostaria de tentar novamente neste dia tão deprimente para os solteiros. Que esse post atinja virtualmente o espaço cósmico das divindades, de Afrodite a Papai Noel, lá vai:

Invisíveis,

Agradeço imensamente por todas as graças já alcançadas e peço desculpas pelos esforços em vão que causaram os meus pedidos anteriores. Não os culpo de forma alguma pelos  ex-namorados, culpo somente a minha falta de inteligência para fazer pedidos, que vou treinar mais uma vez agora…

Dessa vez quero um homem hetero, carinhoso, e que me ame na mesma medida em que eu o amar. Um amor recheado de paixão com alguém que me respeite. Uma pessoa interessante com quem eu possa conversar de Goethe a séries de tv; e seja inteligente, mas não tente passar por intelectual. Que tenha valores morais compatíveis com os meus, um bom caráter – acho que estou merecendo -, que seja bom companheiro, fiel e sem vícios. Que queira crescer junto comigo e não por cima de mim.  Que seja apaixonado por conversar comigo ao ponto de colecionar idéias durante o dia para nutrir nossas longas discussões noturnas. Que demonstre os bons sentimentos e pondere os maus em conversas saudáveis. Assuma os seus erros e tente consertá-los sem desculpas e me aponte os meus defeitos objetiva e pacificamente.

Alguém que seja dedicado sem cercear a liberdade, que se entregue ao amor, que seja romântico e sonhador. E por último, é indispensável que me faça sentir prazer, que seja atencioso, que me faça surpresas, que se preocupe com o meu bem estar, que não me conte mentiras, que seja bonito e atraente aos meus olhos, que seja um sedutor honesto e que fique muito feliz com felicidades muito simples.

Claro que considero complicadíssimo esse pedido e sei da enorme concorrência de outros pedidos, mas se bem realizado poderá ser o último, poupando vários pedidos futuros. Além disso, acredito 100% na viabilidade do projeto, uma vez que: existem 7 bilhões de seres humanos no mundo, mais de 180 milhões estão no Brasil (lembrando que só é preciso querer morar aqui e não necessariamente ser daqui),  10 milhões  e meio são homens entre 25 e 39 anos, desconsiderando uma margem de 30% – para os homossexuais, que não estão disponíveis – ainda restam mais de 3 milhões de homens para a pesquisa.

Aguardo ansiosamente a resposta.

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Identidade

Quando se está em um relacionamento – seja entre namorados, seja entre amigos – é necessário abrir mão de algumas coisas para alcançar uma convivência pacífica e feliz para todos os envolvidos. Com amigos, as concessões são mais banais, decide-se “onde vamos sair”, “o que vamos fazer” etc, amigos se comprometem menos e consequentemente se preocupam e brigam menos.

Em um relacionamento amoroso, no entanto, as coisas se complicam. Ao mesmo tempo em que há o desejo de permanecer juntos o máximo de tempo possível, também há a necessidade de manutenção dos antigos compromissos sociais e do trabalho. E o tempo livre – que  na atual jornada de trabalho – é pouco, fica cada vez mais restrito. As concessões e as exigências são maiores, o cuidado e o respeito nas decisões definem momentos de grandes alegrias ou de grandes tristezas.

E nessa brincadeira de abrir mão, o relacionamento só é saudável e justo quando ocorre na mesma proporção em ambos os lados. A consequência mais fácil e perigosa é a perda da identidade individual dos amantes. E a partir disso, ou ambos entram em completa sintonia e se tornam um só: os mesmos amigos, os mesmos programas, os mesmos assuntos (não tenho exemplos de relacionamento prolongado nessas condições). Ou o relacionamento se torna uma infernal busca pela identidade perdida, prejudicando a convivência harmoniosa e destruindo o respeito mútuo.

Uma vez que isso acontece, não sei o que se pode fazer para retomar o que era bom do amor. O que vejo é uma perda aparentemente permanente do respeito, traumas e aversões nos dois namorados. Cada um se fechando cada vez mais no seu próprio egoísmo com medo de perder qualquer coisa além do que já foi perdido. Perde-se a capacidade de compartilhar e negociar.

Realmente não tenho nenhum apontamento esperançoso para finalizar, uma vez que viagem no tempo não está disponível. Fica em aberto para comentários.

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Desilusões

Observando finais de relacionamentos alheios, eu percebo como as desilusões amorosas fecham portas para novos relacionamentos. Cada namoro terminado, cada decepção, cada mentira contada, reduzem a capacidade de confiar no outro e de ter esperanças. E o que era feliz, aventureiro e ousado no amor, torna-se frio, ausente e indesejável. Queremos correr menos riscos.

Eu não quero chegar a esse ponto. Tenho medo de ficar magoada, machucada e desiludida, mas o meu medo maior é passar por isso tudo e perder a minha capacidade de amar. Eu quero me entregar, quero me envolver, quero amar e quero ser amada sem me preocupar em ser enganada.

E se nada disso for possível, eu quero nunca parar de esperar. Porque a perspectiva de um amor romântico e maravilhoso me faz querer seguir em frente, construir, conquistar. A minha motivação para escrever é o amor. O amor que eu sinto pelas pessoas, pelos meus gatinhos, por mim mesma e por escrever.

Eu não quero me enclausurar na dor. Não quero nunca parar de sonhar e de planejar. Eu quero esperar dias melhores, enquanto fico louca estudando pra provas e adiantando trabalhos para poder viajar. Fazendo um único post na semana e sempre sobre o mesmo assunto.

Mas pode-se dizer que isso não é sobre amor, é sobre o não-amor.

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A atração da loucura

Tenho notado o quanto a loucura é atraente, pelas situações que vivi e no que tenho ouvido ultimamente sobre experiências alheias. E para não dizer que influencio o que ouço, deixo dito que quem me diz nada sabe de mim.

Verifico que a loucura é como um falso álibi, ela permite que o agente se isente pela  sua presença. Assim, o culpado sente-se menos culpado, pois sabe que os outros não podem julgá-lo sem que se considere a doença.

Acreditar-se louco deveria ser crime. Quem se define e rotula assim é na verdade covarde. Assume para si que está em uma situação irremediável e o que decorrer da loucura estará além de suas capacidades de solução. É permanente e inevitável desculpa.

E como não chamá-la atraente?

Quem se considera louco, considera-se também diferente, acima da média, acima dos outros. Acredita ser a loucura decorrente de um estado constante de genialidade. É estar além do medíocre, do comum. “Eu sou diferente”.

E essa segurança excêntrica, não pode ser menos do que atraente. Porque vista de fora, vê-se somente a imagem definida. Vende-se o rótulo de algo que não é produto. Não esperamos ser seduzidos com uma mentira. Porque quem não manipula, não acredita ser manipulado. E aceita uma mentira como verdade.

E quando, depois de seduzido, se depara inevitavelmente com a realidade, já não a reconhece. Fica inerte e despreparado para lidar com as perdas. Insere-se na loucura do outro. Pois ainda que esteja vivendo a realidade, está plenamente iludido. E hoje eu sei como é difícil deixar de viver uma fantasia, já que ela parece sempre maravilhosa.

Mas afirmo com toda a minha convicção que ser louco é mesmo ser diferente. Um diferente perigoso. Não é um excêntrico que acrescente. O louco é um diferente estático, incapaz de compartilhar. Ele tem uma restrição enorme no olhar e enxerga menos do que o mais comum dos seres humanos.

Ele se ofende e sofre com a realidade. Pois ao se considerar louco e diferente, não percebe que a diferença exclui. E que a sua opção e gosto pela diferença, faz perder a capacidade de viver em conformidade com o que é comum.

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